uma nota sobre música e natureza

Mais velha que as palavras

Por que um som pode comover qualquer pessoa, em qualquer lugar — e por que a mesma matemática pode virar música que consola, ou música que assusta.

A música é mais velha que as palavras, e quase todo mundo a entende. Ela funciona do mesmo jeito de um país para o outro porque nunca foi de fato inventada — ela usa sentimentos com os quais todos nascemos.

Somos atraídos por sons que parecem assentados e concluídos, e nos afastamos de sons ásperos e arranhados. Essas reações são muito parecidas no mundo inteiro. É por isso que uma peça de música pode deixar quase qualquer pessoa calma, ou nervosa, sem uma única palavra. E quando a música parece carregar um significado, lembre: há sempre uma pessoa que a fez — o compositor — escolhendo qual desses sentimentos inatos alcançar. É assim que a mesmíssima matemática pode ser transformada em algo que acalma, ou em algo que amedronta.

Em toda parte

Todo mundo já a entende

A música existe em toda cultura humana que já estudamos — e pássaros e baleias também cantam. Num estudo mundial, as pessoas conseguiam ouvir uma canção de uma cultura que nunca tinham encontrado e ainda assim dizer se era um acalanto, uma dança ou uma canção para consolar alguém — só pelo som. Algo nela alcança as pessoas, não importa a língua ou a origem.

Mehr et al., Science, 2019 · Savage et al., PNAS, 2015

No corpo

Duas reações com as quais nascemos

A primeira é a aversão à aspereza. Um som áspero, que se choca (os músicos chamam isso de dissonância), não é só questão de gosto — é um choque real, físico, que teu ouvido distingue, e vai direto à parte do cérebro que sente alarme. É o mesmo efeito que um filme de suspense procura.

A segunda é a necessidade de finais. Uma melodia pode soar inacabada, deixando você à espera da nota que a faz sentir completa — como se a música tivesse enfim chegado em casa. Essa sensação de chegada, quando a tensão se solta, é o que os músicos chamam de resolução. Ela acontece porque tua mente segue adivinhando baixinho o que deveria vir a seguir, e quer que lhe deem razão.

Helmholtz, 1863 (aspereza) · Meyer, 1956 & Huron, 2006 (expectativa) · Krumhansl (a atração pela nota de repouso)

Nos números

A matemática por baixo

Há muito tempo, Pitágoras notou que uma corda tangida soa agradável quando seus comprimentos seguem padrões numéricos simples. Kepler achou padrões parecidos no espaçamento dos planetas. Um físico depois se maravilhou de a matemática ser irrazoavelmente boa em descrever o mundo. A rede tomou essa ideia e a transformou em som — vaga-lumes piscando num único ritmo compartilhado, um mixomiceto retraçando um mapa ferroviário, a forma oculta de um tambor que você pode ouvir mas nunca ver.

Pythagoras · Kepler, Harmonices Mundi, 1619 · Wigner, 1960

O porém

Um final honesto

Mas a música não nos mostra simplesmente o mundo como ele é — quem a faz está sempre entre a coisa e o teu ouvido. Pegue um conjunto de números e construa com eles uma música áspera, de som inacabado, e ela vai te deixar inquieto. Construa com os mesmíssimos números uma alegre música de dança, e ela parecerá inofensiva.

E as reações não são exatamente iguais para todos. Parte disso se aprende, e alguns pesquisadores até acham que a música é um acidente feliz, e não algo de que um dia precisamos. A ideia principal se sustenta mesmo assim: esses sentimentos são antigos e compartilhados por quase todos, e fazer música é a arte de tocar neles.

McDermott et al., Nature, 2016 · Pinker («cheesecake auditivo»)

Esta é a ideia que a música da rede vem testando: que a matemática, transformada em som, pode comover alguém que nunca aprendeu uma nota de música — não porque os números guardem sentimentos, mas porque nós guardamos, e a música sabe como alcançá-los.

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rede de micromodelos zooide · cada peça construída a partir da matemática, sem instrumentos gravados · o som é conferido pela máquina; o significado é seu